Não lembrava de outro inverno tão frio como o deste ano. Sempre ouvira falar que o frio nesta cidade fora muito maior no início, quando tudo era um grande descampado, o cerrado tomando conta dos horizontes, uns grandes vazios de terra esperando as máquinas e os homens para começar alguma obra, uns poucos prédios ilhados aqui e ali ao longo de quilômetros. “Aquilo sim era frio”, diziam os mais velhos, com estranho saudosismo. E quando o frio diminuía, era a vez dos vendavais sem chuva, que empurravam as folhas secas para as ruas, um balé engraçado daqueles restos da estação patinando pelo asfalto das quadras, arrastadas pelos ventos que vinham do sul. Era tempo também dos grandes redemoinhos de terra vermelha, chamados Lacerdinhas, que sujavam toda roupa estendida nos varais e provocavam a correria das crianças para debaixo dos blocos de apartamentos. “Isso eu me lembro”.
Sua lembrança mais antiga, no entanto, não era da cidade onde nascera e vivera a vida inteira, mas de umas férias forçadas, por assim dizer, que passara no Recife, quando mal completara quatro anos. O pai no estrangeiro, por uma temporada, a mãe não teve dúvidas, pegou os dois filhos e partiu para a casa da outra mãe, onde passou todo o verão e mais um pouco, até o regresso do marido. Que ficar sozinha naquela cidade com duas crianças, uma de colo, meu avô não aceitava, não bastasse o casamento contrariado, agora o rapaz se retirava para Washington, para fazer um curso pela polícia, e a filha não podia ficar sozinha numa cidade de candangos, e falava candangos como quem falasse em bandidos ou coisa pior. A mãe se admirava das lembranças, pois que ele era muito pequeno, mas ele lembrava sim, tinha certeza, do tumulto de crianças nas ruas do bairro de Casa Forte, das brincadeiras grosseiras que aprendeu com aqueles meninos mais vividos, do medo que sentiu quando lhe colocaram um sapo nas mãos, da lagartixa amarrada na ponta linha, que rodava sem parar, e depois era solta no quarto das meninas.
Já as lembranças sobre a sua própria cidade, a mais remota era de uma grande festa popular com carro do Corpo de Bombeiros e tudo, muita gente nas ruas, esperando a passagem dos heróis da Copa de 70. O pai o levou, colocou-o acima dos ombros para ver os craques, mas no lugar do escrete canarinho o que ele viu foram homens de terno, sorridentes e acenando para a multidão, e para um menino de seis anos aquilo não era a seleção. Mas lembra sim, apesar da decepção inicial, do Jairzinho e do Piazza, segurando juntos a taça, esses dois ele lembra, pois eram as figurinhas que faltavam no álbum, e que só chegaram depois da copa terminada. (continua na próxima semana)
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